Skip directly to content

Diagnóstico precoce para artrite reumatoide ainda é desafio no Brasil

A temática é um dos destaques da XX Jornada Cone Sul de Reumatologia, que discutirá também novidades no tratamento

Receber aos 39 anos de idade, no auge da vida produtiva, o diagnóstico de uma doença crônica e progressiva, com alto potencial incapacitante, provoca um impacto profundo na vida dos pacientes. Essa é a idade média em que os brasileiros com artrite reumatoide têm sua enfermidade identificada, derrubando o mito de que a doença estaria relacionada unicamente aos idosos, conforme indica uma pesquisa com mais de 3 mil pacientes realizada pelo Instituto Nielsen no Brasil e em outros 12 países, a pedido da Pfizer.

Embora não exista cura para a artrite reumatoide, é possível manter a doença sob controle e evitar danos irreversíveis nas articulações se a doença for identificada em seus estágios iniciais, de modo que o paciente possa receber a medicação mais adequada. No Brasil, contudo, esse processo pode levar muitos anos, em um percurso que obriga o paciente a passar por vários médicos antes de obter uma resposta.

Por isso, é essencial alertar a população sobre a importância do diagnóstico precoce, assunto que está entre os destaques da XXIII Jornada Cone Sul de Reumatologia. O evento, que será realizado entre os dias 23 e 26 de junho, em Foz do Iguaçu (PR), também abordará os avanços e as novidades no tratamento.

“Quanto mais cedo a artrite reumatoide for diagnosticada, mais rapidamente o paciente poderá ser tratado, levando à diminuição da atividade da doença e proporcionando alívio da dor e melhora da qualidade de vida”, diz a reumatologista Rina Giorgi, diretora do Serviço de Reumatologia do Hospital do Servidor Público Estadual e integrante da Comissão de Artrite Reumatoide da Sociedade Brasileira de Reumatologia.

Limitações

Estima-se que a artrite reumatoide afete 2 milhões de pessoas no Brasil, o equivalente à população de uma cidade como Belo Horizonte (MG). Trata-se de uma doença crônica e inflamatória, que compromete as articulações e pode causar rigidez, deformidade articular e desgaste ósseo, incapacitando os pacientes até mesmo para executar tarefas cotidianas, como escovar os dentes.

Normalmente, a artrite reumatoide atinge inicialmente as articulações das mãos e dos punhos, nos dois lados do corpo, mas a evolução do quadro pode causar deformidades e desvios maiores, alcançando as articulações mais centrais ¬– como cotovelos, ombros, tornozelos, joelhos e quadris. Há, ainda, o risco de alterações na estrutura das articulações, com comprometimento dos ossos, cartilagens, tendões, ligamentos e músculos.

Na pesquisa do Instituto Nielsen, o impacto das limitações físicas advindas com a doença é um elemento de destaque.  A maioria dos brasileiros entrevistados (59%) afirma que teve de parar de desempenhar algumas atividades a partir do surgimento dos sintomas – ante 47% da média global. Fragilizados e temerosos de sofrer quedas, os pacientes relatam ainda que preferem realizar ações rotineiras na companhia de outras pessoas.  No Brasil, apenas 43% dos pacientes ouvidos disseram que conseguem executar seus afazeres sem a ajuda de ninguém.

Vida profissional
  
Como o diagnóstico da artrite reumatoide ocorre principalmente em adultos jovens, no auge da vida produtiva, muito frequentemente o paciente passa por perdas profissionais importantes, como a necessidade de reduzir o número de horas trabalhadas e a aposentadoria precoce.

Em relação às atividades laborais, as doenças reumáticas ocupam o 2º lugar entre as causas de afastamento do trabalho no País, de acordo com o Ministério da Previdência Social.  Por isso, o impacto econômico relacionado à doença é importante tanto para a União como para o orçamento das famílias.

Na pesquisa da Nielsen, 35% dos 324 brasileiros ouvidos disseram que a doença abalou sua vida profissional, obrigando 14% deles a se aposentar. Outros 17% pediram demissão, uma taxa superior à média global dos países envolvidos na pesquisa, que foi de 10%. Além disso, 16% tiveram de trocar de trabalho, porcentual também superior à média geral dos países, de 10%.

A maioria dos pacientes (55%) reclama do estigma decorrente da doença, o que também acaba interferindo na vida profissional. Isso porque, segundo a pesquisa, o medo de sofrer discriminação desestimulou 19% dos entrevistados a procurar emprego. Outros 22% não buscam apoio emocional na família e 17% evitam se socializar com parentes e amigos.

A pesquisa

O levantamento do Instituto Nielsen integra uma iniciativa internacional, chamada RA NarRAtive (Rheumatoid Arthritis), desenvolvida pela Pfizer em parceria com um painel global de médicos e organizações de pacientes. “O objetivo desse projeto é identificar as dificuldades dos pacientes e conhecer melhor os impactos da doença na vida dessas pessoas”, afirma a líder médica da Unidade de Negócios de Produtos Inovadores da Pfizer, Marjori Dulcine.

No total, foram ouvidas 3.649 pessoas, entre setembro de 2014 e janeiro de 2015. Além do Brasil, a pesquisa engloba Estados Unidos, Reino Unido, Alemanha, Espanha, Itália, França, Canadá, Japão, Coreia do Sul, Austrália, Turquia e Argentina. No País, 20% dos pacientes ouvidos relataram ter artrite reumatoide grave. O público feminino representou 67% dos entrevistados, dos quais 37% tinham entre 18 e 44 anos; 32% tinham entre 45 e 54 anos, 21% tinham entre 55 e 64 anos e 11% tinham 65 anos ou mais. Do universo pesquisado no Brasil, 67% de pessoas eram casadas ou viviam em união estável, 18% eram solteiros, 13% estavam separados ou divorciados e 4%, viúvos.

Comorbidades

A presença de comorbidades é comum no paciente com artrite reumatoide. Na pesquisa, 26% dos brasileiros disseram ter outra doença inflamatória, 22% apresentavam distúrbios cardíacos e outros 22% eram diabéticos. Além disso, a enfermidade levou 44% dos brasileiros a desenvolver ansiedade e outros 33% a sofrer de depressão. Assim, só 43% do público pesquisado tem um estado de saúde considerado excelente ou bom.

Tendo em vista a complexidade da doença, quase todos os pacientes do Brasil (95%) dizem ter alguma preocupação ligada à artrite reumatoide, principalmente quanto ao impacto sobre a qualidade de vida e à extensão dos danos provocados nas articulações.

Tratamento

Os especialistas mais procurados pelos pacientes com artrite reumatoide no País são os reumatologistas (66%), seguidos dos ortopedistas (48%). São nesses profissionais que 64% dos brasileiros confiam para saber mais sobre o tratamento e receber conselhos.  Outras fontes de informação são a internet (46%), o noticiário (43%), os amigos e familiares (42%) e os portadores da doença (32%).

Uma queixa comum entre 60% dos pacientes entrevistados é a burocracia necessária para receber os medicamentos – porcentagem que é de 41% na média global. Eles reclamam que o preenchimento da documentação toma mais tempo da consulta do que a própria conversa sobre o tratamento.

De acordo com a pesquisa, a média anual de consultas médicas no Brasil é de 8,2 por paciente. Contudo, mais de 70% deles gostariam que esse número fosse ampliado. Os principais entraves para a marcação mais frequente de consultas são problemas na agenda dos médicos (57%), falta de cobertura do plano de saúde (34%) e o fato de o paciente morar longe do consultório (20%).

Para se tratar, 64% dos portadores de artrite reumatoide usam algum tipo de medicação, 60% praticam exercícios físicos e 49% seguem uma dieta específica. Metade dos entrevistados toma um medicamento modificador do curso da doença reumática (DMARD), que controla o processo inflamatório característico da artrite reumatoide.

Quase 60% dos pacientes definem o tratamento como bem-sucedido quando o inchaço e a inflamação nas articulações diminuem, mas 67% deles desejam dispor de mais opções de medicamentos. Além disso, sete em cada dez gostariam de mudar algo nos remédios existentes. As principais alterações desejadas se referem à eficácia no alívio dos sintomas (29%), ao número de eventos adversos (24%) e à frequência para tomar o medicamento (25%).

Assunto relacionado: 
Year: