Terapia gênica

cientistas fazendo estudos em células

Terapia gênica é um tratamento que introduz no organismo genes saudáveis - chamados de terapêuticos ou de interesse - para substituir, modificar ou suplementar genes inativos ou disfuncionais que causem algum problema de saúde. O primeiro teste clínico bem-sucedido com terapia gênica foi divulgado em 1990, nos Estados Unidos, em uma paciente que nasceu com um tipo de erro inato do metabolismo. 

Desde então, houve avanços, mas só em 2020 o registro do primeiro tratamento utilizando esta tecnologia foi autorizado no Brasil. Saiba quais doenças podem se beneficiar do uso da terapia gênica com as atuais plataformas conhecidas, os riscos e benefícios conhecidos para a saúde. 

Quais as aplicações da terapia gênica?

A terapia gênica pode tratar diferentes tipos de condições. Veja algumas das principais aplicações:

Doenças hereditárias e raras - elas podem ser causadas pela mutação de um único gene, como na hemofilia e em doenças metabólicas. Como há somente um gene defeituoso, as chances de a terapia gênica tratar a causa da doença são maiores.

Doenças multifatoriais - podem ser causadas pela mutação de diferentes genes, ter influência do ambiente e/ ou ter causa desconhecida. A terapia gênica visa diminuir ou evitar o avanço de doenças graves e neurodegenerativas, como a doença de Parkinson. O tratamento pode focar nos fatores genéticos de pré-disposição ou gravidade, ou na possibilidade de modificar mecanismos fundamentais ou a estrutura das células, dos órgãos ou sistemas atingidos.

Câncer - um exemplo de terapia é a CAR-T Cells, que usa as próprias células do paciente para agir em alvos específicos. As células de defesa do organismo são extraídas e moldadas em laboratório para combaterem o próprio câncer, depois, são injetadas de volta no paciente. Essa tecnologia tem sido uma esperança no tratamento principalmente de cânceres hematológicos, como leucemias e linfomas.

Como o paciente recebe a terapia gênica?

Existem duas formas de o material genético ser introduzido nas células do paciente. Quando as células são isoladas, modificadas em laboratório e retornadas ao corpo do paciente, a técnica usada é a ex vivo. Quando os genes são inseridos diretamente nas células através de um vetor, normalmente um vetor viral, se denomina técnica in vivo.

O que são os vetores na terapia gênica?

A terapia gênica é baseada na introdução de genes nas células, seja de forma direta – como na técnica in vivo – seja modificada anteriormente, como na técnica ex vivo. Para que isso ocorra de forma bem-sucedida, é necessário um veículo, chamado de vetor, para facilitar a entrada do DNA nas células. Existem três categorias principais de vetores, que continuam sendo aprimorados:

  • Vetores virais - vírus inofensivos ou nocivos, que podem ser manipulados para perder essas características;
  • Plasmídeos (pequenos segmentos de DNA);
  • Vetores nanoestruturados (polímeros).

Efeitos colaterais conhecidos da terapia gênica

Apesar dos avanços relacionados à terapia gênica, ainda há questões sobre os riscos, danos e efeitos colaterais que pode provocar. Já foram verificadas alterações leves e de curto prazo em algumas pessoas tratadas com terapias aprovadas, por exemplo:

  • Dor ou inflamação leve no local da injeção;
  • Dor de cabeça; 
  • Febre baixa; 
  • Sintomas característicos de uma gripe.


Existem dúvidas quanto a durabilidade e efeitos a longo prazo. No entanto, as consequências da terapia gênica para tratamentos aprovados são toleráveis se comparadas aos benefícios.

Um dos riscos da terapia gênica utilizando vetores virais - que são considerados mais eficientes no transporte do gene - pode ser a estimulação de respostas imunes, por exemplo. Por mais que a possibilidade seja muito pequena, os pesquisadores continuam buscando novos vetores ou formas de tornar os atuais ainda mais seguros e eficientes, avaliando também se a terapia gênica pode aumentar o risco para complicações. 

Qual a diferença entre terapia gênica e terapia celular?

A terapia gênica pode ser confundida com a terapia celular, porém elas são diferentes e têm suas definições alinhadas junto à agência regulatória dos país. Veja do que cada uma se trata:

Terapia celular - é quando são usadas células inteiras para tratar uma doença com base nas propriedades regenerativas de células-tronco, mas não há nenhuma modificação genética. É um dos tipos de tratamento da leucemia, por exemplo.

Terapia gênica - é baseada na transferência de DNA. Isso pode ser feito em laboratório, sem o auxílio de células inteiras do portador da doença ou de doadores.

Quais são as regras no Brasil para aprovação de terapia gênica? 

De acordo com as regras instituídas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), por meio da RDC nº 338, de 20 de fevereiro de 2020, somente os produtos das seguintes terapias podem ser registrados: 

  • Produtos de terapias celulares avançadas;
  • Produtos de terapias genéticas;
  • Produtos de engenharia tecidual.


É necessário que haja dados e provas adicionais comprobatórias de eficácia clínica do procedimento, ou seja, evidências baseadas em ensaios clínicos, estabelecendo benefícios para o paciente.

Terapia gênica no Brasil

A terapia gênica é estudada há décadas. No Brasil, somente em 2005, começou a ser organizada uma Rede de Terapia Gênica. A princípio, a rede contou com 14 grupos de pesquisa do Rio de Janeiro, de São Paulo e do Rio Grande do Sul, dedicados a fazer pesquisa na área de terapia gênica. 

Onze anos depois, em agosto de 2020, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou, pela primeira vez, o registro de uma terapia gênica no país. A aprovação é referente ao uso dessa técnica no tratamento das Doenças Hereditárias da Retina (DHR). Raras, elas são causadas por mutações no gene RPE65, que provoca a perda da visão. Logo em seguida, outra terapia gênica foi aprovada no Brasil, dessa vez para tratar pacientes que tenham a doença rara Atrofia Muscular Espinhal (AME), visando suplantar a falta do gene SMN1, responsável pela sobrevivência do neurônio motor e pelo controle do movimento muscular.

Em fevereiro de 2022, a Anvisa aprovou o primeiro produto de terapia gênica para tratamento de câncer no Brasil. Mais especificamente, para cânceres do tipo hematológico – originados no sangue. A terapia é destinada a pessoas com até 25 anos de idade, que tenham Leucemia Linfoblástica Aguda (LLA) e para pacientes adultos com Linfomas. 

Estudos continuam sendo feitos em diversas áreas terapêuticas para desenvolver e aprovar novas terapias gênicas no Brasil, trazendo uma nova perspectiva para o tratamento das doenças genéticas. 

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Referências

 

PP-UNP-BRA-0216